Na quarta-feira da graça, na matriz de São Francisco, dia 22 de abril, ouvi algo que não saiu mais de mim.
Durante a homilia, Frei José Maria disse:
“A criança que mora em nós nunca vai embora.”
E não vai mesmo.
Ela permanece nos gestos, nas reações, nas feridas que ainda doem sem aviso.
Na psicologia, isso não é novidade — mas ouvir aquilo, naquele momento, foi diferente. Foi como se alguém tivesse acendido uma luz dentro de mim.
A criança que mora em mim existe.
E ela é intensa. Às vezes calma. Às vezes tempestuosa.
Aprendi a me defender atacando, porque houve momentos em que fui esmagada — não fisicamente, mas por palavras, por olhares, por humilhações que marcam mais do que qualquer ferida visível.
Mas nem sempre foi assim.
Teve um tempo em que eu era leve.
Nessa foto, eu era um anjinho.
Corria pelo quintal como quem não devia nada ao mundo.
Subia em árvores. Sentia o vento. Corria pela ruas descalça, tomava banho de chuva. Era livre como um pássaro. Eu não conhecia ausência.
O mundo era bonito porque eu ainda não tinha aprendido a me proteger dele.
Foi na escola que tudo mudou. Descobri a maldade nas palavras dos outros. As risadas. Os apelidos. As pequenas crueldades que, para quem recebe, nunca são pequenas.
E eu revidava. Enfurecida, partia para a briga.
Porque, para mim, era questão de sobrevivência.
Na pré-adolescência e na adolescência, isso se intensificou. Tudo era motivo de ataque.
E, ao mesmo tempo, tudo era motivo de defesa.
Mas tem algo que pouca gente vê quando olha só para as reações.
Eu nunca fui relapsa. Ao contrário. Eu estudava. Tirava boas notas. Era escolhida pelos professores. Confiavam em mim.
Enquanto o mundo me feria de um lado, eu construía do outro. Sozinha.
Se hoje sou intensa, exigente, às vezes difícil, não é por acaso. É porque nada veio fácil. Tudo (ou nada, vai depender da sua interpretação pessoal), foi conquistado com esforço, com suor e, muitas vezes, com lágrimas que ninguém viu.
Com o tempo aprendi e entendi a minha intensidade tem história. E talvez, muitos continuam sem entender, mas não vou diminuir para caber na grandeza de ninguém.
— Coisas que ainda moram em mim.
— Coisas que ainda moram em mim.


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