Ainda sinto o cheiro do café torrado em casa, sinto também o barulho das galinhas, os piados incessantes dos pintos. A semana corria devagar, no último galho da árvore da mangueira estava eu, às vezes com um livro ou simplesmente sentindo o vento balançar os galhos num vai e vem calmo e até hipnotizante. Do alto do galho eu via cada pessoa que passava pela rua, mas a minha espera era exatamente a MAINHA, quando a via de longe, descia rápido do pé de mangueira gritando: mamãe, a mainha está chegando! E corria descalça pelo chão de areia da rua, pedindo “opa”. Mainha, ainda cansada do trabalho da salina, me colocava nos braços enquanto atravessava o vão da porta.
O feijão já estava cozido no fogareiro, temperado com banha de porco e cheiro verde (tirado do canteiro). Minha avó continuava de cócoras, mexendo com a colher de pau o café, que cheirava maravilhosamente bem.
— Lucimar, qual vai ser a mistura?
— Mamãe, as galinhas estão pondo ovos Perguntava mainha.
— Estão, respondia mamãe.
— Vou fazer uma “malassada”.
— Então vem terminar o café, porque tu nunca aprendeu a bater os ovos com garfo.
E eu simplesmente observava minha avó fazendo claras em leves, misturando a gema, a farinha branca (peneirada na mão). A malassada eu aprendi, mas a farinha branca eu uso a peneira.
Memórias são tão especiais não é mesmo? Você revisita sua infância?

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