Por um televisor…

 


Por inúmeras vezes perguntei a Deus se a pobreza tinha cor e cheiro. Nunca obtive resposta. Éramos apenas crianças (eu e minha irmã, Nayla) querendo assistir aos desenhos animados. Mas não tínhamos um televisor em casa.
Às vezes, conseguíamos ver a tela inteira, quando o portão ou a janela do vizinho estavam abertos. Outras vezes, víamos a tela partida, recortada pelas frestas. E ainda assim, “que sorte a nossa”.
Minha memória não guarda o incômodo de ficar horas em pé, nem de carregar minha irmã no colo ou “tumtum”. O que ficou foi o desejo simples de assistir aos desenhos animados, que amávamos.
Nunca contamos às nossas mães que não éramos bem-vindas. A gente só queria assistir. Até que, um dia, não sei bem por quê, a frase que ouvíamos rotineiramente: “Vão para casa de vocês, meninas velhas”, teve plateia.
— Passem as duas para casa agora mesmo. Era a voz da minha avó Romana.
Não havia raiva. Não havia ruptura. Havia indignação, mas também amor. Minha avó nos observava. E naquele dia disse algo que nunca mais saiu de mim:
“Somos pobres financeiramente sim, mas temos que ter orgulho de quem somos. Nunca aceitem a humilhação.”
Quando mainha chegou, minha avó Romana falou com firmeza: “Lucimar, não sei como será, mas vamos dar um jeito de comprar um televisor. O que eu vi hoje não quero que se repita”.
Dias depois, lá estava ele: um televisor preto e branco, em cima da única mesa da casa. Mas era nosso. Assistíamos aos desenhos sentadas no chão de terra batida, dentro da nossa casa de taipa.
E ninguém mais poderia nos expulsar; porque afinal; ali era o nosso lar.

Coisas da minha infância que ainda moram em mim.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

INSTAGRAM FEED

@aylablogueira